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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Pesquisa sobre Cura do Zumbido: vamos entender?

Hoje proponho um “brainstorm” coletivo com essa leitura. A Ciência reforça que pesquisas confiáveis sobre tratamento devem seguir um método rígido chamado Ensaio Clínico Randomizado (ECR) para diminuir a chance de erros na interpretação dos resultados. Por exemplo, não basta dar um medicamento para 100 pessoas e ver se ele funciona ou não... é necessário dividir as 100 pessoas em 2 grupos, por sorteio, de modo que metade vai tomar o tal medicamento e metade toma placebo (substância que não faz efeito). Além disso, nem o médico nem o paciente devem saber o que cada um está tomando (apenas uma terceira pessoa sabe de tudo).

Admiro este método rigoroso, mas tenho minhas frustrações com ele. Como o zumbido é cheio de variáveis, parece improvável que um ECR realmente mostre o caminho para a cura. Assim, me atrevi a criar uma pesquisa alternativa e simples: encontrar ex-sofredores de zumbido que se consideram CURADOS, ou seja, fazer o contrário dos outros – aprender com quem JÁ SE CUROU!
 
Incluímos pessoas que tiveram zumbido diariamente por pelo menos 3 meses (de qualquer causa) e já estavam curados há pelo menos 6 meses. EXCLUÍMOS pessoas que não se incomodam com o zumbido, mas ainda o percebem em baixo volume.
 
Já entrevistamos os primeiros 50 pacientes. Aqui vai o resumo dos resultados:
- a idade deles variou de 14 a 89 anos de idade (média de 53,78 anos). Por algum motivo, 72% eram mulheres (não sei explicar, mas adorei essa parte!). A duração do zumbido variou de 3 meses a 40 anos (média de 5,83 anos, ou seja bem crônico!). Você pode imaginar alguém com zumbido por 40 anos e depois se cura? Nenhum pesquisador acreditaria nisso!

- o incômodo que o zumbido causava era tão importante como o de qualquer pessoa. Na escala de 0 a 10 de incômodo, 80% davam nota de 7 a 10 para o zumbido. Vários tinham alterações no sono, na concentração, no equilíbrio emocional ou na vida social.

- 58% tinham zumbido do tipo tom puro (apito, cigarra, grilo etc) e sempre havia outros sintomas junto, sejam eles do próprio sistema auditivo (perda auditiva, ouvido tampado, intolerância a sons ou tontura), ou do sistema somatossensorial (dor de cabeça, no pescoço ou na articulação temporomandibular) ou do sistema digestivo (jejum prolongado, abuso de doces ou cafeína).

- 52% tinham audiometria normal nas frequências de 250 a 8000Hz.
Agora pasmem... o período que essas pessoas já estão curadas variou de 6 meses a 37 anos, com média de quase 10 anos! Além disso, 60% fizeram apenas uma ou duas tentativas de tratamento, o que sugere que existe um subtipo de zumbido que é FÁCIL de curar. Isso é exatamente o que precisamos descobrir: qual é a chave que “abre a porta” do sucesso.

Os tratamentos que os próprios pacientes acharam responsáveis pela cura foram: medicação (42%), técnicas de terapias manuais ((10%) e aparelhos auditivos convencionais (sem gerador de som – 6%). Um número menor de pessoas atribuiu a cura à espiritualidade, ao poder da mente, à placa oclusal, ao aconselhamento,  à dieta, à mudança da cidade para o campo etc.

Agora vem o brainstorm: esses casos se curaram com tratamentos que falharam em pesquisas do tipo ECR (expliquei lá em cima, lembra?). Por isso, acho que a Ciência precisa urgentemente REPENSAR a maneira de planejar e interpretar o ECR, evitando menosprezar tratamentos que não superam o placebo quando aplicados para zumbido em geral. É mais lógico entender que misturar um grupo de pessoas com zumbido pode ser uma falha grave nas pesquisas, por isso, um tratamento que “falha” poderia funcionar melhor se fosse direcionado para subgrupos específicos de zumbido. Esse, SIM, me parece ser o segredo do sucesso!

Depois de entrevistar esses pacientes, naturalmente passei a acreditar ainda mais na cura do zumbido. Curar-se é como alcançar a linha de chegada, ou seja, percorrer 100% da jornada: não é num único pulo, mas aos poucos!

CONCLUSÃO: o estudo dos primeiros 50 pacientes que se curaram evidenciou que a cura do zumbido pode ser obtida por meio de diferentes estratégias e por um período de tempo longo e estável. Pertencer ao sexo feminino e ter um zumbido do tipo tom puro com audiometria normal podem ser fatos relevantes, mas não necessários para a cura.

Este trabalho foi apresentado como convite para a Sessão Presidencial do XII International Tinnitus Seminar e I World Congress of Tinnitus, que foi realizado de 22 a 24 de maio de 2017 em Varsóvia, Polônia.


Se você conhecer alguém que tinha zumbido e não tem mais, escreva para contato@institutoganzsanchez.com.br. Obrigada!

terça-feira, 3 de maio de 2016

Criança tem zumbido?

Querem saber se criança tem zumbido? Siiiiiiiim! Se vocês nunca viram uma delas, provavelmente vão duvidar... mas vamos aos argumentos:


A) Tive a oportunidade de orientar o doutorado da Dra Cláudia Coelho que, junto com a fono Sandra Weber, testaram 506 crianças de 5 a 12 anos, em escolas públicas ou privadas no interior do Rio Grande do Sul. Sabendo que crianças têm tendência de gerar falsos positivos para agradar os examinadores, nosso questionário tinha 3 critérios de rigor para considerarmos que uma criança da pesquisa tinha zumbido. Ela tinha que: 1) responder SIM para a pergunta "você ouve algum barulhinho nos seus ouvidos quando está tudo em silêncio?"; 2) saber descrever COMO era o som; 3) saber descrever ONDE o ouvia (lado do ouvido ou cabeça). Ficamos surpresas de constatar que 37% dessas 506 crianças tinham a percepção de zumbido (Coelho CCB, Sanchez TG, Tyler R. Tinnitus in children and associated risk factors. Prog Brain Res. 2007;166:179-91).

B) Depois dessa experiência, meu pensamento era "se as crianças têm mais zumbido do que o percentual obtido nas pesquisas de prevalência na população geral - que nem incluem crianças! - então, os adolescentes também devem ter!". Lá fomos nós buscar essa resposta... na pesquisa com 170 adolescentes de 12 a 17 anos, vimos que: 1) usando um questionário como instrumento para saber a resposta à pergunta "você tem ou teve zumbido nos últimos 12 meses?", constatamos que 54,7% deles responderam SIM, além de terem esclarecido como era o som, onde o percebiam (ouvidos ou cabeça) e em que situações ele aparecia; 2) quando colocados dentro da cabina acústica para medir a audição, 28,8% deles também foram capazes de fazer acufenometria (medida da frequência e intensidade do zumbido) porque o estavam percebendo naquele preciso momento! Resumindo: mesmo considerando apenas a taxa de zumbido obtida dentro da cabina (que foi o trunfo desse trabalho), DE NOVO vimos uma prevalência de zumbido muito maior do que a relatada nos estudos com a população geral. Esse trabalho completo até foi dividido em duas publicações: Sanchez TG, Oliveira JC, Kii MA, Freire K, Cota J, Moraes FV. Tinnitus in adolescents: the start of the vulnerability of the auditory pathways. Codas. 2015;27(1):5-12 e Sanchez TG, Moraes FV, Casseb J, Cota J, Freire K, Roberts LE. Tinnitus is associated with reduced sound level tolerance in adolescents with normal audiograms and otoacoustic emissions. Sci Reports, no prelo).

Então, se zumbido é mais comum do que o esperado em crianças e adolescentes, por que eles não chegam aos nossos consultórios? Simples! Ficou claro que eles não têm incômodo e nem contam aos pais - geralmente porque acham que “é normal” ou que “todo mundo tem” ou porque dormem com a TV ligada. Com isso, existe uma habituação/adaptação espontânea ao zumbido nessas faixas etárias, gerando menos repercussão negativa na qualidade de vida (esse é o lado bom da coisa ruim). Por outro lado, deixar de investigar a tratar precocemente são os fatores primordiais para incentivar a cronicidade, tornando uma boa resposta a um eventual tratamento potencialmente mais difícil no futuro.

Para finalizar, faço um convite a vocês: que tal incluir uma perguntinha básica na anamnese de crianças ou adolescentes: “Você ouve algum som nos seus ouvidos/cabeça quando está tudo em silêncio?”. Isso é válido para otorrinos, fonos, pediatras, hebiatras, psicólogos, etc. Eles conseguem ser bem precisos nas respostas e certamente avançaríamos mais nesse tópico intrigante.